Filhos são bichos raros. Dizemos "são tal qual a minha cara", ou "são iguais a mim em tudo"- e depois um dia descobrimos que, em (aparentemente) insignificantes pormenores, são verdadeiros estranhos.
A minha filha, que é das pessoas com quem eu me dou melhor, que é uma cópia de mim em tantas coisas -noutras é diametralmente oposta. Uma das coisas que irremediavelmente nos separam é "a tralha". Ou aquilo a que ela chama "tralha". "Palavra que não sei como consegues viver no meio desta tralha toda", diz ela muitas vezes quando vem cá a casa.
Acontece que a minha filha ainda não viveu tempo suficiente para ter a casa dela cheia de tralha e, pior do que isso, para não poder viver sem ela. Aquilo a que ela desdenhosamente chama "tralha" são objectos que marcaram a minha vida. Que me foram dados por pessoas muito amadas e que já morreram. Ou que estão vivas mas desapareceram do meu lado. Ou que estão longe e assim parecem mais perto. Ou que aparecem pouco, mas são muito importantes para mim. Coisas que não servem para nada - a não ser para me ajudarem a suportar a vida.
Não seria capaz de viver numa casa decorada por profissionais - que decerto não iriam encher as minhas mesas de pedras, folhas secas, búzios, postais, desenhos dos netos, frascos cheios de canetas,etc. Tudo o que eu tenho em casa - tirando os objectos necessários à nossa vida quotidiana - tem uma história, recorda alguém, lembra um lugar ou marca um tempo.
E que seria eu sem os retratos que me espreitam de todos os cantos? Como poderia andar pela casa se eles não olhassem para mim? Se eu não ouvisse as suas vozes, tão nítidas, rebentando das molduras?
E agora digam-me lá como é que eu posso chamar "tralha" a isto.
In JN de Hoje
Sim , dizei lá queridas Colheiteiras ....